Há um dado no novo Atlas da Violência que atravessa qualquer leitura técnica e se impõe como um choque: em dez anos, o número de notificações de violência sexual contra crianças de 0 a 4 anos no Brasil saltou de 1.671 para 7.845 casos.
Não se trata apenas de um aumento estatístico. O crescimento superior a quatro vezes em uma década expõe um país onde a infância mais vulnerável passou a ocupar o centro de uma crise silenciosa, muitas vezes escondida atrás das paredes de casa.
Mas o retrato mais amplo revelado pelo levantamento é ainda maior.
Embora a explosão proporcional na primeira infância chame atenção pela gravidade, é entre crianças e adolescentes de 5 a 14 anos que a violência sexual atinge sua dimensão mais massiva. Em 2014, essa faixa etária registrava 6.594 notificações. Em 2024, o número chegou a 29.135 casos.
Atlas mostra crescimento explosivo da violência sexual infantil no Brasil - Foto: Luan Julião | Ag. A TARDE | ChatGPT
São mais de 22 mil novos registros em apenas uma década.
Na prática, isso significa que, somente nesse grupo, o Brasil passou a contabilizar uma média de quase 80 notificações por dia de violência sexual contra crianças e adolescentes.
Produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Ipea, o Atlas da Violência mostra que os casos cresceram em todas as faixas etárias entre 2014 e 2024. O estudo descreve os dados como “um retrato denso e revelador da evolução desse fenômeno no tempo” e alerta que a violência letal costuma ser apenas “o desfecho extremo de processos que começam muito antes”.
A faixa etária mais atingida
Ano após ano, o grupo de 5 a 14 anos aparece como o principal epicentro da violência sexual no Brasil.
Em 2024, essa faixa concentrou cerca de 66% de todas as notificações de violência sexual envolvendo menores de 19 anos. Os pesquisadores classificam esse grupo como o mais vulnerável diante desse tipo de crime.
É justamente nessa idade que a infância começa a ampliar seus espaços de convivência para além da família. Escola, transporte, atividades sociais e redes de contato passam a integrar o cotidiano das vítimas. Segundo o estudo, esses ambientes se tornam importantes tanto para a exposição à violência quanto para a identificação dos casos.
Ainda assim, o lar continua sendo o principal cenário dos abusos.
A infância sitiada
Os números desenham uma curva contínua de crescimento até 2019, interrompida em 2020, período em que especialistas apontam subnotificação provocada pelo isolamento da pandemia e retomada com ainda mais intensidade a partir de 2021.
Na prática, isso significa que milhares de crianças muito pequenas passaram a integrar as estatísticas de violência sexual em um intervalo extremamente curto.
Embora a faixa de 5 a 14 anos concentre o maior volume absoluto de notificações, com salto de 6.594 para 29.135 registros em dez anos, o avanço proporcional entre crianças de 0 a 4 anos chama atenção pela gravidade da exposição tão precoce.
Em 2024, os dados mostram que:
- 66% das notificações de violência sexual contra menores de 19 anos ocorreram entre 5 e 14 anos;
- 18% atingiram crianças de 0 a 4 anos;
- 16% envolveram adolescentes de 15 a 19 anos.
O Atlas aponta ainda que a violência sexual apresenta forte concentração justamente na infância e no início da adolescência, revelando um padrão persistente de vulnerabilidade.
O lar como cenário do medo
Talvez o aspecto mais perturbador do levantamento esteja no local onde esses crimes acontecem.
Para crianças de 0 a 4 anos, quase 80% dos casos de violência ocorreram dentro da própria residência. O espaço que deveria simbolizar proteção aparece, nos dados oficiais, como principal território de risco.
O estudo também mostra que 79,9% das ocorrências nessa faixa etária têm autoria doméstica — envolvendo pais, padrastos ou parentes próximos.
A violência, portanto, não chega de fora. Ela se instala no cotidiano.
Fonte: A Tarde
Por Luan Julião
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